sábado, 27 de outubro de 2012

Presente de Natal


Passei alguns Natais (dois, três?), no hotel Solverde, em Espinho. Dormia com a minha irmã num quarto com vista para o mar, tinha televisão, comíamos muito bem e tinha piscina. Portanto eram dias de conforto, físico pelo menos. Em termos familiares, a coisa nunca estava bem, e por isso o conforto físico era uma prioridade.

A entrada pelo hotel fazia-se por uma porta transparente, e por dentro o hotel era em tons de verde, com aquela luz de lounge de hotel, com um bar com sofás negros. O restaurante também tinha vista para o mar. Para além do mar, também via a piscina exterior, e imaginava dias de sol. De manha dávamos passeios na praia, e eu imaginava dias de sol.

Na verdade, acho que era precisamente esse o encanto do local, para mim. A promessa do sol. Nunca lá estive no Verão, apenas na Pascoa e no Natal. Mas apanhávamos sempre algum dia de sol. Mesmo no frio de uma manha de Inverno, na piscina interior de água verde, o sol e o mar brilhavam lá fora e a piscina exterior estava azul, como se fosse Verão. Cada vez mais tenho a sensação de que é à promessa que ligo a minha felicidade. A coisas que me despertam a imaginação, que me fazem desejar um mundo que talvez não seja real. O que não sei se é bom ou se é mau. Ou se significa mesmo algo.

Passeávamos no passadiço depois de almoço, e aquela zona da praia era meia selvagem  com dunas e vegetação. Ao fundo, uma única casa, um café à portuguesa, com um único senhor de meia-idade a tirar os cafés e um par de homens a beber sentados em duas das quatro mesas, e uma televisão ligada ao cimo de um dos cantos.

Nadei lá bastantes vezes, e não consigo recordar-me delas de forma coerente. Posso separar as memórias em duas: as de noite, e as de dia.

De noite, lembro-me de pelas janelas da piscina apenas ver escuro, completamente escuro, lá fora. Por dentro, os vidros escorriam humidade. O ar era húmido e quente, e a água também, e o contraste entre o quente e luminoso dentro e o frio e escuro lá fora dava-me a sensação de estar protegida, como num útero. A minha avó sentava-se numa espreguiçadeira e observava, como sempre observou, demasiado, que era a sua forma de tomar conta, penso eu.

A piscina tinha a forma de dois retângulos que se cruzam, o que permitia nadar distâncias a direito mas que a tornava diferente de uma piscina feita exclusivamente para isso, e com essa sensação eu sentia-me livre para esquecer o número de piscinas, braçadas, técnica, todas essas coisas, e podia simplesmente apreciar o meu presente de Natal: estar na piscina quente com o frio lá fora. 

De dia, lembro-me de lá nadar no dia a seguir ao Natal, ao fim da manhã. Lá fora o dia era de Inverno mas vinha da praia uma imensa claridade. Íamos embora a seguir ao almoço, e lembro-me de, ao vir embora da piscina para me ir vestir, de ter uma sensação de adeus, mas um adeus que era um até à próxima. Não apenas do local em si, mas de algo em mim que se cristalizou. E estava descansada por ter nadado, mas não só por ter nadado.

piscina interior do Hotel Solverde, em Espinho

sábado, 22 de setembro de 2012

Café da manhã


Nos últimos anos tenho quase sempre nadado à hora de almoço. Ou a meio da manhã, ou a meio da tarde. Isto deveu-se sobretudo aos meus horários de trabalho e mais ainda ao estilo de vida a ele associado (credo, que soa presunçoso). Mas hoje fui nadar de manhã cedo, antes de ir trabalhar. Nadei 10 minutos, se tanto, na piscina de 5 metros da Rosa. Ou seja, duas braçadas por cada distância da piscina. A água estava fria, o céu estava meio cinzento, a anunciar o Outono, o que me agradou, não sei porquê. Talvez porque no Outono tudo acalme, e até o nadar seja mais tranquilo. Nadei os primeiros 3 minutos para afastar o frio, logo uns poucos minutos mais relaxados. E depois fui tomar banho, um banho quente, e vesti-me. Umas calças de ganga, uma t-shirt, umas chinelas. Mochila às costas, e saí. E a caminho do comboio, senti-me feliz. Uma felicidade curta, passageira, uma daquelas que aparece por refletir uma memória carinhosa. A brisa fresca no cabelo molhado e no corpo já desperto fez-me sentir mais leve, mais calma, mais feliz. Vieram-me também as saudades de nadar de manhã – a primeira coisa do dia logo depois do café. Depois de ter nadado de manhã há um descanso na alma, uma espécie de liberação do subconsciente, que depois está disponível para todas as outras vivências do resto do dia.

Já quando treinava, o treino da manhã era o meu preferido. Íamos para a escola de cabelo molhado, já com uma vida no bolso antes da de todos os outros começar. Já nesse caminho sentia a brisa fresca no cabelo molhado, mesmo no Inverno. A sensação era a mesma, como se a brisa fresca também corresse por dentro de nós e purificasse o nosso ar.  

Durante a faculdade, quando vivia na minha avó, ia nadar antes de ir para as aulas. O café, o pão com manteiga, o caminho para a piscina, ser a primeira a entrar e nadar meia hora a correr, ir para a paragem de metro de mochila às costas e a brisa fresca no cabelo molhado.

Nadar pela manhã como primeira coisa do dia foi durante muito tempo a minha boia de salvação.

Nadar devia ser sempre a primeira coisa do dia – logo a seguir ao café da manhã. E depois, sempre, a brisa fresca no cabelo molhado. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Em busca da piscina encantada

Piscina da Quinta da Conceição

Nos últimos tempos fui-me dando conta de que não conhecia nada da minha terra natal. O facto de ser uma ávida nadadora e de só aos 25 anos descobrir a Piscina das Marés, de Álvaro Siza Vieira, diz tudo… e meditando nisso, sabendo que afinal há outra piscina de Siza Vieira em Matosinhos, decidi que a tinha que ir ver. E está pertinho de onde durmo quando estou em Matosinhos, mas longe o suficiente para me sentir a dar uma volta. Afinal, até tenho que atravessar uma ponte. Estou a referir-me, não obviamente, à piscina da Quinta da Conceição.

A piscina foi inaugurada em 1965, na altura dos melhoramentos desenhados pelo arquiteto Fernando Távora para a Quinta da Conceição, que incluíram a construção da piscina e do pavilhão de ténis. Contaram-me que quando foi sugerida a Fernando Távora a ideia da piscina, este respondeu que só o Siza a poderia fazer. 

Ora, que falta para me atrair? Nadinha de nada. E como quando se decide algo mais tarde ou mais cedo a oportunidade aparece, num fim-de-semana de inícios de Setembro que tive que ir ao Porto, fiz planos para lá dar um salto. A Susie quis ir comigo, e lá fomos.

Estava um dia cinzento, enublado, mas ainda com um restinho de calor do Verão. Fomos tomar café à marginal de Matosinhos, e depois apanhamos o metro. Saímos na última paragem, e ainda nos restava um bom pedaço. A Susie dizia-me temos que atravessar a segunda ponte, e eu a pensar “de que ponte está a falar”(porque nunca memorizo locais onde passo de carro – nunca), e andamos, e claro que a andar as ruas por onde sempre passamos mas nunca andamos, estas nos parecem novas. Caminhamos com aquela sensação agradável de não saber bem se estamos no caminho certo, mas com a crença a pender para o sim. Lá chegamos à ponte que eu reconheci, obviamente (!), atravessamos e descemos para o outro lado. Olhamos à volta, ora isto será caminho para peões, só um estreito passeio, e andamos então com a ainda mais agradável sensação de estarmos num caminho pelo qual já quase ninguém passa. Até falamos disso, do quão diferentes nos sentíamos por estarmos num programa daqueles num fim-de-semana. O ar estava tão fresco, o cheiro da praia tão perto, o ambiente tão solitário, parecia uma metáfora de um mundo por descobrir, que era inacreditável sermos as únicas ali, enquanto a maioria das pessoas parecia querer ficar em casa, almoçar até às 5 da tarde, depois sair à noite, e no dia seguinte levantar-se à uma, e deprimir durante o restinho do Domingo.

A falar nisto lá chegamos à Quinta da Conceição. Um ar abandonado, mas de qualquer forma, muito bonito. Rapidamente vimos as paredes brancas que estão à volta da piscina. Primeira dificuldade: por onde entrar. A piscina é num alto, sem qualquer caminho para se subir (ou pelo menos um que tenhamos descoberto!) Ou seja, tem que se fazer uma mini escalada para chegar ao cubo branco. Eu, feita estúpida, de chinela grande para o meu pé e minissaia, fiz figurinhas tristes, a agarrar troncos do chão para não cair e com a minissaia subida e cueca ao léu para poder movimentar bem as pernas. O costume. Lá subimos e metemo-nos por uma abertura por uma das paredes brancas e chegamos à piscina. Sem grande surpresa minha… estava completamente vazia. Não me surpreendeu, porque toda a informação que tinha sobre a piscina dava a entender isso – sem ser diretamente, porque mesmo na página oficial da Camara de Matosinhos dizia que a piscina não estava em funcionamento. Mas, bem… também não dizia que estava.

E vimos então uma grande, linda, piscina vazia. Com três metros de profundidade num dos lados. E nesse mesmo lado, unida à piscina de adultos, a piscina das crianças, separadas apenas por uma rede, o que me encantou. As crianças numa piscina de 80 cm de profundidade, e uma rede a separá-las de uma piscina de 3 metros de profundidade. Adoro este tipo de oposições – o pequeno com o grande, o íntimo com o público, o familiar no estranho. Parece-me um daqueles sinais de fé, de que não devemos ter medo de nos juntar. E os blocos de partida. Penso que a piscina das Marés também tinha blocos até alguns anos atrás - são como uma lembrança de que afinal as piscinas não são só para brincadeiras e para acalmar temporariamente o calor no corpo. Também são para se nadar – o facto de Álvaro Siza desenhar blocos para as piscinas encanta-me, faz-me sentir em sintonia com ele, como se dissesse: sim, o ato de nadar é algo que está tão integrado na natureza como a arquitetura da piscina.

E lá ficamos, a olhar para a piscina vazia. Pouco surpreendidas, mas desconsoladas na mesma. Fomos dar uma vista de olhos aos balneários. Tanta fralda suja. Aliás, dentro da piscina também. Porquê que alguém se há-de lembrar de atirar fraldas sujas para uma piscina vazia? Enfim.
Saímos do cubo branco e demos uma volta pela piscina da Conceição. Paramos nos campos de ténis, onde parece haver uma escola de ténis. Estavam abertos, em ótimas condições, aparentemente sem ninguém a vigiar. Que tentação. Tanto potencial e pffft. Nada. Ficamos também lá um tempo a meditar sobre isso, com mente em modo sonhador.

E depois, como eu estava com imensa falta de piscina (chegar a uma piscina e estar fechada deixa-me sempre doida), fomos a pé até à piscina das Marés. Mas mesmo com a falta de piscina, ainda comemos uma sande, soneca depois de almoço… porque só saber que tinha a a piscina à minha disposição, para eu nadar quando quisesse, já me descansava. E ao fim da tarde lá fui nadar um bocadinho.
Portanto, acabou por ser um dia muito bom. Duas piscinas do Siza num raio de 5km quadrados. Ok, uma delas vazia, (cheia só mesmo de fraldas sujas), mas sempre descobri uma piscina nova para mim, como sempre descobri algo mais, e fui mesmo nadar a uma piscina do Siza, à beira-mar. E vou continuar a procurar piscinas, lagos, mares, o que for, onde possa nadar. É a minha “desculpa” para me ir movendo neste mundo.



sábado, 1 de setembro de 2012

El Descenso de la Ría de Navia


Não tenho a certeza, mas acho que foi durante o Verão que passamos em Altura. Tenho apenas alguns  fragmentos a nadar na memória, em impressões muito claras, mas pouco sobre ordem cronológica ou espacial. Nadei eu, a Maria, a Isabel, o Fernando, o Bruno... terá o Zé nadado? não me lembro.

O "Descenso Ria de Navia" é uma prova de águas abertas que faz parte do programa das festas locais de Navia, no mês de Agosto, e ao mesmo tempo é uma prova muito conceituada a nível competitivo, e essa mistura dá-lhe uma magia especial.  Na página oficial da prova lê-se:

"A competição teve a sorte de 'cair bem' desde o primeiro entre os nadadores, fundindo-se assim a seriedade desportiva com um alegre companheirismo. E a circunstancia de ter alcançado certa repercursão mediática conseguiu que a gente de Navia ficasse encantada com aquela jovem travessia, e começasse a apoiá-la com entusiasmo - rodeando o espaço de gaiteiros, oferecendo bolos aos nadadores... criando, numa palavra, um ambiente festivo ao seu redor.
Nascia assim um sentimento de empatia mutua entre nadadores e habitantes da comarca, ainda mais reforçado pelo afecto que todos, seduzidos pela beleza da ria, sentiam em relação ao espaço natural da competição.
Cinquenta e dois anos depois o Descenso, organizado desde 1964 pela Associação de Amigos da Ría de Navia, é um acontecimento plural em que se conjugam intimamente três facetas: a desportiva, a festiva e a cultural."

A descrição está em perfeita concordância com as minhas memórias do fim de semana. O Descenso da ria de Navia é como o melhor concerto dos concertos de Verão. Podemos não nos lembrar de quem actuou, que músicas tocaram... mas o ambiente tinha algo de especial que fica na sempre impresso na memória.

Continuando... na noite anterior à prova (ou terá sido na noite da prova?) fomos à feira. Lembro-me de olharmos os colares, feitos à mão, de todas as formas e cores, sob as luzinhas amarelas das tendas de feira. Na noite escura, no meio de tanta gente, com aquela luz, todas as peças parecem especias, preciosas, únicas.

No dia da prova estava ligeiramente enublado, não havia sol. Desde a zona do fim da prova (que é onde está montada a feira), levam-nos de autocarro até ao local da partida. Mas como a partida é no meio do bosque, o autocarro não pode lá entrar,  e por isso, depois de sair do autocarro, temos que andar uns 200 metros pelo meio do mato, de fato de banho, cheios de vaselina, com números pintados nas costas e nos braços, e descalços pela lama, porque tinha chovido de noite. Ou seja, ridículos.
Lá chegamos à zona da partida, e ficamos há espera que alguém nos dê um sinal qualquer, todos com a ligeira suspeita de que se calhar foram-se embora e se esqueceram de nós ali no meio do mato. Mas não, a certa altura houve-se o sinal, mas eu não consigo sair imediatamente daquele estado de estranheza, de modos que fico parada, meia tonta, a olhar para frente, e vejo a minha irmã Maria a desviar-se pela esquerda e a subir por umas pedras, e dali a atirar-se para cima do pessoal. Olho para o lado e rio-me com a Isabel, que também ainda não reagiu.
E pronto, lá começo a prova, não me lembro bem da partida, nem sequer muito da prova em si. Nadei para a frente. Mas lembro-me que a partir de certo ponto, já na segunda metade do percurso, está um monte de gente a observar a prova lá de cima. Como estou a nadar praticamente sozinha, teria talvez uma outra nadadora ao meu lado, sinto que estão todos a olhar para mim. Começo a imaginar o que estarão a pensar quando eu nado, “esta nada mal”, “esta vai a penar”, etc. O mais provável era não pensarem absolutamente nada, mas durante um pedaço diverti-me com a ideia.
Termino a prova, subo as escadas e dão-me um copo de chocolate quente. Ei, como me apetecia agora um chocolate quente depois de uma travessia! E quando me dão o chocolate quente fico com a genuína impressão de que aqueles fulanos sicranos que temos à nossa frente se importam mesmo connosco, que respeitam o esforço que cada um de nós acabou de fazer. É agradável. Fosse assim o mercado laboral.
Ah, lembro-me agora que o Zé foi, sim. Isto porque me recordo muito bem de um amigo dele, o Xeira, desistir a meio da prova, porque tinha frio ou porque viu qualquer monstro debaixo de água, mas no fundo o que ele queria era uma passeata de barco enquanto bebia chocolate quente.
Quanto aos resultados, sei que a Maria ficou em oitavo lugar. O Zé penso que também algo por aí. Eu em 23ª. Ou 32ª. Por aí… O Fernando Costa perdeu com o campeão mundial de águas abertas, mas pelo que me contaram os do meu clube que viram a chegada, chegaram os dois ao mesmo tempo, mas como estávamos em Espanha deram a vitória ao espanhol…

De resto, sei que perdi o meu blusão de ganga e que nesse fim-de-semana combinamos com a Isabel que no Verão seguinte fazíamos um interrail. Só tenho fragmentos de memórias, mas tenho em mim bem marcada a impressão de que nesse fim-de-semana me senti jovem, despreocupada, e em férias de Verão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Está escuro lá fora e eu estou a escrever. Venho da piscina. Parece-me familiar. Hoje nadei, com mau tempo e céu cinzento. Foi um daqueles dias em que me lembrei porque gosto de nadar. Para voltar ao sítio familiar onde não consigo chegar fora de água; onde descubro algo dentro de mim que não muda; onde uma capa externa desaparece, onde só existe a cadência ritmada das braçadas suaves. Estava cinzento lá fora. O céu também não muda. Nadei mil metros de crawl. A minha mente vagueou, perdeu-se, voltou ao exterior por vezes, admito. Mas também relaxou, eu soube abandonar e deixar andar. Por vezes senti vontade de sorrir na borda da piscina, e deixei-me sorrir.
Qual é a perfeição que procuramos? Por vezes perdemo-nos no aspecto exterior da perfeição, quando só a consideramos na sua forma medível, no certo ou no errado, preto ou branco. Pensamos que temos que fazer “isto assim” para alcançar “aquilo”. Vemos a perfeição como uma meta futura, mas ao estar no futuro, não existe. Perdemo-nos no processo, no “ter” que fazer, e por isso não conseguimos alcançar aquele momento de perfeição que afinal já conhecemos, que não, não é medível e que acontece precisamente agora. Felizmente sinto que nunca me perco para demasiado longe; há sempre avisos que me recolocam no caminho certo. Quando estou cansada de tentar fazer; quando o que faço parece vazio e duro; quando sinto que o faço porque não consigo largar; chega então o momento em que digo a mim mesma que não importa. Não importa se faço bem, se faço mal, se estou no caminho certo ou errado, se evoluo, estagno ou retrocedo; se algo me obriga a continuar, então basta continuar. Faço só porque faço, porque é o que é. E vem mesmo o momento em que regresso a esse sítio perfeito, sossegado e silencioso, mas que parece ter dentro dele todo o mundo. E sorrio na borda da piscina.


A piscina lá em minha casa

Ontem fui levar ao cinema uma das netas de senhora que me aluga o quarto. Passei pela piscina do polidesportivo lá do sítio, o El Torréon. Tinha isso mesmo, o ar de piscina lá do sítio. Logo imaginei a confusão das mãezinhas a levar os filhos às aulas de fim de tarde, os idosos nas aulas da manhã e hora de almoço, essas rotinas de piscina lá do sítio. A minha piscina lá do sítio é a piscina de Matosinhos. Mas ao passar por ela e a ver a semelhança, apercebi-me de que não quero ter mais nenhuma piscina lá do sítio.
Para mim só pode haver uma piscina lá do sítio, que é a piscina da minha infância. Tem encanto por estar encapsulada nessa infância. Ter outra piscina lá do sítio só levará à comparação, que evidentemente leva à desilusão, à insatisfação, à melancolia. A piscina da minha infância é a piscina da minha infância.
Então e as outras piscinas? Às outras piscinas quero-as todas, quero qualquer uma, mas quero-as sempre novas, sempre diferentes. Quero sempre, de forma ocasional, ver o familiar de forma indiferenciada - a risca preta no fundo da piscina, os nadadores salvadores e os professores nas suas posturas universais, os mesmos "tipos" de nadadores, a água quente dos chuveiros, a sensação de leveza e frescura à saída da piscina. Todas essas impressões me fazem sentir em casa em qualquer local novo. Quando estou num local que desconheço, ir a uma piscina faz-me sentir parte desse mesmo local, dá-me a chave para interpretar o que tenho à volta.
Mas fazer de qualquer outra piscina a piscina de minha casa? Ganhar familiaridade com o senhor da receção? Conversar frequentemente com os professores lá do sítio, saber detalhes da vida dele e eles da minha? Reconhecer os mesmos rostos de sempre nos balneários? Não, isso não. Isso ficará na piscina de minha casa. Por falar nisso, tenho que entrar em contacto com alguns amigos de lá. Vou remexer nas memórias da piscina de minha casa. Mas as outras? Ai nas outras eu só quero é viajar... Vou passando por elas, vou deixando que viaje o coração. E talvez um dia o meu coração regresse a casa. 

Bolas de sabão


No mês passado fui nadar a uma piscina municipal de Verão em Madrid - ou seja, bastante gente, nada de pistas, pessoas a correr, saltar e a nadar por todo lado. No entanto, há espaço suficiente para se nadar, mesmo que um pouco desorganizadamente... Como de costume, entro e começo a nadar crol em diagonal. Essa distância que percorro em diagonal é como uma metáfora de liberdade: a distância não tem linhas delimitadoras, cada braçada deixa de ser um meio para chegar a um fim; e não há nada que num tão curto espaço de tempo me dê a mesma sensação de que a felicidade está no aqui e no agora. Depois, estou a cruzar um número enorme de pessoas – estou a cruzá-los, mas não há qualquer conflito. Eu estou ali de forma diferente, mas ninguém se dá conta, ninguém olha, ninguém julga. Sou diferente, mas estou integrada. E mais, o próprio fenómeno é sempre uma surpresa, no sentido em que não estou à procura dele. Não lhe ponho nenhuma expectativa, e ele vem sempre, leve, fácil, alegre e colorido, como uma bola de sabão. Inúmeras vezes, vai-se repetindo – vêm-me à mente outras distâncias percorridas em diagonal, e só com a memória vem-me à pele o mesmo arrepio, a mesma alegria de criança no coração, a mesma vontade de lá voltar.
E, tal qual uma bola de sabão, o momento acaba, desaparece, desfaz-se no ar, e eu sou como a criança, que, no rebentar da bola, passa numa milésima de segundo do estado de absoluto encanto para a total desilusão e confusão. Estou a lembrar-me agora mesmo de um exemplo. Na piscina das marés colocam uma pista para vedar o acesso a uma parte mais perigosa da piscina. É ao lado a essa pista que costumo nadar. Nado em diagonal até à pista, e mal a toco, o encanto desaparece. Estou pronta para nadar, sim, mas já não há a mesma espontaneidade, a mesma leveza, a mesma integração. E quando termino de nadar, volto a nadar em diagonal até às escadas da piscina para sair, e volta aí o encanto. Parece quase cruel, que o encanto volte precisamente quando eu vou sair. Eu sei que não serve de nada voltar para trás a procurá-lo, a bolinha de sabão já rebentou. Mas a desilusão dura também só o milésimo de segundo, porque sei que se há coisa que nunca vai desaparecer, são as bolinhas de sabão. E como diz a Mariana, tudo há de ir bem enquanto as crianças ficarem encantadas com bolinhas de sabão.