sábado, 22 de setembro de 2012

Café da manhã


Nos últimos anos tenho quase sempre nadado à hora de almoço. Ou a meio da manhã, ou a meio da tarde. Isto deveu-se sobretudo aos meus horários de trabalho e mais ainda ao estilo de vida a ele associado (credo, que soa presunçoso). Mas hoje fui nadar de manhã cedo, antes de ir trabalhar. Nadei 10 minutos, se tanto, na piscina de 5 metros da Rosa. Ou seja, duas braçadas por cada distância da piscina. A água estava fria, o céu estava meio cinzento, a anunciar o Outono, o que me agradou, não sei porquê. Talvez porque no Outono tudo acalme, e até o nadar seja mais tranquilo. Nadei os primeiros 3 minutos para afastar o frio, logo uns poucos minutos mais relaxados. E depois fui tomar banho, um banho quente, e vesti-me. Umas calças de ganga, uma t-shirt, umas chinelas. Mochila às costas, e saí. E a caminho do comboio, senti-me feliz. Uma felicidade curta, passageira, uma daquelas que aparece por refletir uma memória carinhosa. A brisa fresca no cabelo molhado e no corpo já desperto fez-me sentir mais leve, mais calma, mais feliz. Vieram-me também as saudades de nadar de manhã – a primeira coisa do dia logo depois do café. Depois de ter nadado de manhã há um descanso na alma, uma espécie de liberação do subconsciente, que depois está disponível para todas as outras vivências do resto do dia.

Já quando treinava, o treino da manhã era o meu preferido. Íamos para a escola de cabelo molhado, já com uma vida no bolso antes da de todos os outros começar. Já nesse caminho sentia a brisa fresca no cabelo molhado, mesmo no Inverno. A sensação era a mesma, como se a brisa fresca também corresse por dentro de nós e purificasse o nosso ar.  

Durante a faculdade, quando vivia na minha avó, ia nadar antes de ir para as aulas. O café, o pão com manteiga, o caminho para a piscina, ser a primeira a entrar e nadar meia hora a correr, ir para a paragem de metro de mochila às costas e a brisa fresca no cabelo molhado.

Nadar pela manhã como primeira coisa do dia foi durante muito tempo a minha boia de salvação.

Nadar devia ser sempre a primeira coisa do dia – logo a seguir ao café da manhã. E depois, sempre, a brisa fresca no cabelo molhado. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Em busca da piscina encantada

Piscina da Quinta da Conceição

Nos últimos tempos fui-me dando conta de que não conhecia nada da minha terra natal. O facto de ser uma ávida nadadora e de só aos 25 anos descobrir a Piscina das Marés, de Álvaro Siza Vieira, diz tudo… e meditando nisso, sabendo que afinal há outra piscina de Siza Vieira em Matosinhos, decidi que a tinha que ir ver. E está pertinho de onde durmo quando estou em Matosinhos, mas longe o suficiente para me sentir a dar uma volta. Afinal, até tenho que atravessar uma ponte. Estou a referir-me, não obviamente, à piscina da Quinta da Conceição.

A piscina foi inaugurada em 1965, na altura dos melhoramentos desenhados pelo arquiteto Fernando Távora para a Quinta da Conceição, que incluíram a construção da piscina e do pavilhão de ténis. Contaram-me que quando foi sugerida a Fernando Távora a ideia da piscina, este respondeu que só o Siza a poderia fazer. 

Ora, que falta para me atrair? Nadinha de nada. E como quando se decide algo mais tarde ou mais cedo a oportunidade aparece, num fim-de-semana de inícios de Setembro que tive que ir ao Porto, fiz planos para lá dar um salto. A Susie quis ir comigo, e lá fomos.

Estava um dia cinzento, enublado, mas ainda com um restinho de calor do Verão. Fomos tomar café à marginal de Matosinhos, e depois apanhamos o metro. Saímos na última paragem, e ainda nos restava um bom pedaço. A Susie dizia-me temos que atravessar a segunda ponte, e eu a pensar “de que ponte está a falar”(porque nunca memorizo locais onde passo de carro – nunca), e andamos, e claro que a andar as ruas por onde sempre passamos mas nunca andamos, estas nos parecem novas. Caminhamos com aquela sensação agradável de não saber bem se estamos no caminho certo, mas com a crença a pender para o sim. Lá chegamos à ponte que eu reconheci, obviamente (!), atravessamos e descemos para o outro lado. Olhamos à volta, ora isto será caminho para peões, só um estreito passeio, e andamos então com a ainda mais agradável sensação de estarmos num caminho pelo qual já quase ninguém passa. Até falamos disso, do quão diferentes nos sentíamos por estarmos num programa daqueles num fim-de-semana. O ar estava tão fresco, o cheiro da praia tão perto, o ambiente tão solitário, parecia uma metáfora de um mundo por descobrir, que era inacreditável sermos as únicas ali, enquanto a maioria das pessoas parecia querer ficar em casa, almoçar até às 5 da tarde, depois sair à noite, e no dia seguinte levantar-se à uma, e deprimir durante o restinho do Domingo.

A falar nisto lá chegamos à Quinta da Conceição. Um ar abandonado, mas de qualquer forma, muito bonito. Rapidamente vimos as paredes brancas que estão à volta da piscina. Primeira dificuldade: por onde entrar. A piscina é num alto, sem qualquer caminho para se subir (ou pelo menos um que tenhamos descoberto!) Ou seja, tem que se fazer uma mini escalada para chegar ao cubo branco. Eu, feita estúpida, de chinela grande para o meu pé e minissaia, fiz figurinhas tristes, a agarrar troncos do chão para não cair e com a minissaia subida e cueca ao léu para poder movimentar bem as pernas. O costume. Lá subimos e metemo-nos por uma abertura por uma das paredes brancas e chegamos à piscina. Sem grande surpresa minha… estava completamente vazia. Não me surpreendeu, porque toda a informação que tinha sobre a piscina dava a entender isso – sem ser diretamente, porque mesmo na página oficial da Camara de Matosinhos dizia que a piscina não estava em funcionamento. Mas, bem… também não dizia que estava.

E vimos então uma grande, linda, piscina vazia. Com três metros de profundidade num dos lados. E nesse mesmo lado, unida à piscina de adultos, a piscina das crianças, separadas apenas por uma rede, o que me encantou. As crianças numa piscina de 80 cm de profundidade, e uma rede a separá-las de uma piscina de 3 metros de profundidade. Adoro este tipo de oposições – o pequeno com o grande, o íntimo com o público, o familiar no estranho. Parece-me um daqueles sinais de fé, de que não devemos ter medo de nos juntar. E os blocos de partida. Penso que a piscina das Marés também tinha blocos até alguns anos atrás - são como uma lembrança de que afinal as piscinas não são só para brincadeiras e para acalmar temporariamente o calor no corpo. Também são para se nadar – o facto de Álvaro Siza desenhar blocos para as piscinas encanta-me, faz-me sentir em sintonia com ele, como se dissesse: sim, o ato de nadar é algo que está tão integrado na natureza como a arquitetura da piscina.

E lá ficamos, a olhar para a piscina vazia. Pouco surpreendidas, mas desconsoladas na mesma. Fomos dar uma vista de olhos aos balneários. Tanta fralda suja. Aliás, dentro da piscina também. Porquê que alguém se há-de lembrar de atirar fraldas sujas para uma piscina vazia? Enfim.
Saímos do cubo branco e demos uma volta pela piscina da Conceição. Paramos nos campos de ténis, onde parece haver uma escola de ténis. Estavam abertos, em ótimas condições, aparentemente sem ninguém a vigiar. Que tentação. Tanto potencial e pffft. Nada. Ficamos também lá um tempo a meditar sobre isso, com mente em modo sonhador.

E depois, como eu estava com imensa falta de piscina (chegar a uma piscina e estar fechada deixa-me sempre doida), fomos a pé até à piscina das Marés. Mas mesmo com a falta de piscina, ainda comemos uma sande, soneca depois de almoço… porque só saber que tinha a a piscina à minha disposição, para eu nadar quando quisesse, já me descansava. E ao fim da tarde lá fui nadar um bocadinho.
Portanto, acabou por ser um dia muito bom. Duas piscinas do Siza num raio de 5km quadrados. Ok, uma delas vazia, (cheia só mesmo de fraldas sujas), mas sempre descobri uma piscina nova para mim, como sempre descobri algo mais, e fui mesmo nadar a uma piscina do Siza, à beira-mar. E vou continuar a procurar piscinas, lagos, mares, o que for, onde possa nadar. É a minha “desculpa” para me ir movendo neste mundo.



sábado, 1 de setembro de 2012

El Descenso de la Ría de Navia


Não tenho a certeza, mas acho que foi durante o Verão que passamos em Altura. Tenho apenas alguns  fragmentos a nadar na memória, em impressões muito claras, mas pouco sobre ordem cronológica ou espacial. Nadei eu, a Maria, a Isabel, o Fernando, o Bruno... terá o Zé nadado? não me lembro.

O "Descenso Ria de Navia" é uma prova de águas abertas que faz parte do programa das festas locais de Navia, no mês de Agosto, e ao mesmo tempo é uma prova muito conceituada a nível competitivo, e essa mistura dá-lhe uma magia especial.  Na página oficial da prova lê-se:

"A competição teve a sorte de 'cair bem' desde o primeiro entre os nadadores, fundindo-se assim a seriedade desportiva com um alegre companheirismo. E a circunstancia de ter alcançado certa repercursão mediática conseguiu que a gente de Navia ficasse encantada com aquela jovem travessia, e começasse a apoiá-la com entusiasmo - rodeando o espaço de gaiteiros, oferecendo bolos aos nadadores... criando, numa palavra, um ambiente festivo ao seu redor.
Nascia assim um sentimento de empatia mutua entre nadadores e habitantes da comarca, ainda mais reforçado pelo afecto que todos, seduzidos pela beleza da ria, sentiam em relação ao espaço natural da competição.
Cinquenta e dois anos depois o Descenso, organizado desde 1964 pela Associação de Amigos da Ría de Navia, é um acontecimento plural em que se conjugam intimamente três facetas: a desportiva, a festiva e a cultural."

A descrição está em perfeita concordância com as minhas memórias do fim de semana. O Descenso da ria de Navia é como o melhor concerto dos concertos de Verão. Podemos não nos lembrar de quem actuou, que músicas tocaram... mas o ambiente tinha algo de especial que fica na sempre impresso na memória.

Continuando... na noite anterior à prova (ou terá sido na noite da prova?) fomos à feira. Lembro-me de olharmos os colares, feitos à mão, de todas as formas e cores, sob as luzinhas amarelas das tendas de feira. Na noite escura, no meio de tanta gente, com aquela luz, todas as peças parecem especias, preciosas, únicas.

No dia da prova estava ligeiramente enublado, não havia sol. Desde a zona do fim da prova (que é onde está montada a feira), levam-nos de autocarro até ao local da partida. Mas como a partida é no meio do bosque, o autocarro não pode lá entrar,  e por isso, depois de sair do autocarro, temos que andar uns 200 metros pelo meio do mato, de fato de banho, cheios de vaselina, com números pintados nas costas e nos braços, e descalços pela lama, porque tinha chovido de noite. Ou seja, ridículos.
Lá chegamos à zona da partida, e ficamos há espera que alguém nos dê um sinal qualquer, todos com a ligeira suspeita de que se calhar foram-se embora e se esqueceram de nós ali no meio do mato. Mas não, a certa altura houve-se o sinal, mas eu não consigo sair imediatamente daquele estado de estranheza, de modos que fico parada, meia tonta, a olhar para frente, e vejo a minha irmã Maria a desviar-se pela esquerda e a subir por umas pedras, e dali a atirar-se para cima do pessoal. Olho para o lado e rio-me com a Isabel, que também ainda não reagiu.
E pronto, lá começo a prova, não me lembro bem da partida, nem sequer muito da prova em si. Nadei para a frente. Mas lembro-me que a partir de certo ponto, já na segunda metade do percurso, está um monte de gente a observar a prova lá de cima. Como estou a nadar praticamente sozinha, teria talvez uma outra nadadora ao meu lado, sinto que estão todos a olhar para mim. Começo a imaginar o que estarão a pensar quando eu nado, “esta nada mal”, “esta vai a penar”, etc. O mais provável era não pensarem absolutamente nada, mas durante um pedaço diverti-me com a ideia.
Termino a prova, subo as escadas e dão-me um copo de chocolate quente. Ei, como me apetecia agora um chocolate quente depois de uma travessia! E quando me dão o chocolate quente fico com a genuína impressão de que aqueles fulanos sicranos que temos à nossa frente se importam mesmo connosco, que respeitam o esforço que cada um de nós acabou de fazer. É agradável. Fosse assim o mercado laboral.
Ah, lembro-me agora que o Zé foi, sim. Isto porque me recordo muito bem de um amigo dele, o Xeira, desistir a meio da prova, porque tinha frio ou porque viu qualquer monstro debaixo de água, mas no fundo o que ele queria era uma passeata de barco enquanto bebia chocolate quente.
Quanto aos resultados, sei que a Maria ficou em oitavo lugar. O Zé penso que também algo por aí. Eu em 23ª. Ou 32ª. Por aí… O Fernando Costa perdeu com o campeão mundial de águas abertas, mas pelo que me contaram os do meu clube que viram a chegada, chegaram os dois ao mesmo tempo, mas como estávamos em Espanha deram a vitória ao espanhol…

De resto, sei que perdi o meu blusão de ganga e que nesse fim-de-semana combinamos com a Isabel que no Verão seguinte fazíamos um interrail. Só tenho fragmentos de memórias, mas tenho em mim bem marcada a impressão de que nesse fim-de-semana me senti jovem, despreocupada, e em férias de Verão.