Não tenho a certeza, mas acho que foi durante o Verão que passamos em Altura. Tenho apenas alguns fragmentos a nadar na memória, em impressões muito claras, mas pouco sobre ordem cronológica ou espacial. Nadei eu, a Maria, a Isabel, o Fernando, o Bruno... terá o Zé nadado? não me lembro.
O "Descenso Ria de Navia" é uma prova de águas abertas que faz parte do programa das festas locais de Navia, no mês de Agosto, e ao mesmo tempo é uma prova muito conceituada a nível competitivo, e essa mistura dá-lhe uma magia especial. Na página oficial da prova lê-se:
"A competição teve a sorte de 'cair bem' desde o primeiro entre os nadadores, fundindo-se assim a seriedade desportiva com um alegre companheirismo. E a circunstancia de ter alcançado certa repercursão mediática conseguiu que a gente de Navia ficasse encantada com aquela jovem travessia, e começasse a apoiá-la com entusiasmo - rodeando o espaço de gaiteiros, oferecendo bolos aos nadadores... criando, numa palavra, um ambiente festivo ao seu redor.
Nascia assim um sentimento de empatia mutua entre nadadores e habitantes da comarca, ainda mais reforçado pelo afecto que todos, seduzidos pela beleza da ria, sentiam em relação ao espaço natural da competição.
Cinquenta e dois anos depois o Descenso, organizado desde 1964 pela Associação de Amigos da Ría de Navia, é um acontecimento plural em que se conjugam intimamente três facetas: a desportiva, a festiva e a cultural."
A descrição está em perfeita concordância com as minhas memórias do fim de semana. O Descenso da ria de Navia é como o melhor concerto dos concertos de Verão. Podemos não nos lembrar de quem actuou, que músicas tocaram... mas o ambiente tinha algo de especial que fica na sempre impresso na memória.
Continuando... na noite anterior à prova (ou terá sido na noite da prova?) fomos à feira. Lembro-me de olharmos os colares, feitos à mão, de todas as formas e cores, sob as luzinhas amarelas das tendas de feira. Na noite escura, no meio de tanta gente, com aquela luz, todas as peças parecem especias, preciosas, únicas.
No dia da prova estava ligeiramente enublado, não havia sol. Desde a zona do fim da prova (que é onde está montada a feira), levam-nos de autocarro até ao local da partida. Mas como a partida é no meio do bosque, o autocarro não pode lá entrar, e por isso, depois de sair do autocarro, temos que andar uns 200 metros pelo meio do mato, de fato de banho, cheios de vaselina, com números pintados nas costas e nos braços, e descalços pela lama, porque tinha chovido de noite. Ou seja, ridículos.
Lá chegamos à zona da partida, e ficamos há espera que alguém nos dê um sinal qualquer, todos com a ligeira suspeita de que se calhar foram-se embora e se esqueceram de nós ali no meio do mato. Mas não, a certa altura houve-se o sinal, mas eu não consigo sair imediatamente daquele estado de estranheza, de modos que fico parada, meia tonta, a olhar para frente, e vejo a minha irmã Maria a desviar-se pela esquerda e a subir por umas pedras, e dali a atirar-se para cima do pessoal. Olho para o lado e rio-me com a Isabel, que também ainda não reagiu.
E pronto, lá começo a prova, não me lembro bem da partida, nem sequer muito da prova em si. Nadei para a frente. Mas lembro-me que a partir de certo ponto, já na segunda metade do percurso, está um monte de gente a observar a prova lá de cima. Como estou a nadar praticamente sozinha, teria talvez uma outra nadadora ao meu lado, sinto que estão todos a olhar para mim. Começo a imaginar o que estarão a pensar quando eu nado, “esta nada mal”, “esta vai a penar”, etc. O mais provável era não pensarem absolutamente nada, mas durante um pedaço diverti-me com a ideia.
Termino a prova, subo as escadas e dão-me um copo de chocolate quente. Ei, como me apetecia agora um chocolate quente depois de uma travessia! E quando me dão o chocolate quente fico com a genuína impressão de que aqueles fulanos sicranos que temos à nossa frente se importam mesmo connosco, que respeitam o esforço que cada um de nós acabou de fazer. É agradável. Fosse assim o mercado laboral.
Ah, lembro-me agora que o Zé foi, sim. Isto porque me recordo muito bem de um amigo dele, o Xeira, desistir a meio da prova, porque tinha frio ou porque viu qualquer monstro debaixo de água, mas no fundo o que ele queria era uma passeata de barco enquanto bebia chocolate quente.
Quanto aos resultados, sei que a Maria ficou em oitavo lugar. O Zé penso que também algo por aí. Eu em 23ª. Ou 32ª. Por aí… O Fernando Costa perdeu com o campeão mundial de águas abertas, mas pelo que me contaram os do meu clube que viram a chegada, chegaram os dois ao mesmo tempo, mas como estávamos em Espanha deram a vitória ao espanhol…
De resto, sei que perdi o meu blusão de ganga e que nesse fim-de-semana combinamos com a Isabel que no Verão seguinte fazíamos um interrail. Só tenho fragmentos de memórias, mas tenho em mim bem marcada a impressão de que nesse fim-de-semana me senti jovem, despreocupada, e em férias de Verão.