domingo, 16 de setembro de 2012

Em busca da piscina encantada

Piscina da Quinta da Conceição

Nos últimos tempos fui-me dando conta de que não conhecia nada da minha terra natal. O facto de ser uma ávida nadadora e de só aos 25 anos descobrir a Piscina das Marés, de Álvaro Siza Vieira, diz tudo… e meditando nisso, sabendo que afinal há outra piscina de Siza Vieira em Matosinhos, decidi que a tinha que ir ver. E está pertinho de onde durmo quando estou em Matosinhos, mas longe o suficiente para me sentir a dar uma volta. Afinal, até tenho que atravessar uma ponte. Estou a referir-me, não obviamente, à piscina da Quinta da Conceição.

A piscina foi inaugurada em 1965, na altura dos melhoramentos desenhados pelo arquiteto Fernando Távora para a Quinta da Conceição, que incluíram a construção da piscina e do pavilhão de ténis. Contaram-me que quando foi sugerida a Fernando Távora a ideia da piscina, este respondeu que só o Siza a poderia fazer. 

Ora, que falta para me atrair? Nadinha de nada. E como quando se decide algo mais tarde ou mais cedo a oportunidade aparece, num fim-de-semana de inícios de Setembro que tive que ir ao Porto, fiz planos para lá dar um salto. A Susie quis ir comigo, e lá fomos.

Estava um dia cinzento, enublado, mas ainda com um restinho de calor do Verão. Fomos tomar café à marginal de Matosinhos, e depois apanhamos o metro. Saímos na última paragem, e ainda nos restava um bom pedaço. A Susie dizia-me temos que atravessar a segunda ponte, e eu a pensar “de que ponte está a falar”(porque nunca memorizo locais onde passo de carro – nunca), e andamos, e claro que a andar as ruas por onde sempre passamos mas nunca andamos, estas nos parecem novas. Caminhamos com aquela sensação agradável de não saber bem se estamos no caminho certo, mas com a crença a pender para o sim. Lá chegamos à ponte que eu reconheci, obviamente (!), atravessamos e descemos para o outro lado. Olhamos à volta, ora isto será caminho para peões, só um estreito passeio, e andamos então com a ainda mais agradável sensação de estarmos num caminho pelo qual já quase ninguém passa. Até falamos disso, do quão diferentes nos sentíamos por estarmos num programa daqueles num fim-de-semana. O ar estava tão fresco, o cheiro da praia tão perto, o ambiente tão solitário, parecia uma metáfora de um mundo por descobrir, que era inacreditável sermos as únicas ali, enquanto a maioria das pessoas parecia querer ficar em casa, almoçar até às 5 da tarde, depois sair à noite, e no dia seguinte levantar-se à uma, e deprimir durante o restinho do Domingo.

A falar nisto lá chegamos à Quinta da Conceição. Um ar abandonado, mas de qualquer forma, muito bonito. Rapidamente vimos as paredes brancas que estão à volta da piscina. Primeira dificuldade: por onde entrar. A piscina é num alto, sem qualquer caminho para se subir (ou pelo menos um que tenhamos descoberto!) Ou seja, tem que se fazer uma mini escalada para chegar ao cubo branco. Eu, feita estúpida, de chinela grande para o meu pé e minissaia, fiz figurinhas tristes, a agarrar troncos do chão para não cair e com a minissaia subida e cueca ao léu para poder movimentar bem as pernas. O costume. Lá subimos e metemo-nos por uma abertura por uma das paredes brancas e chegamos à piscina. Sem grande surpresa minha… estava completamente vazia. Não me surpreendeu, porque toda a informação que tinha sobre a piscina dava a entender isso – sem ser diretamente, porque mesmo na página oficial da Camara de Matosinhos dizia que a piscina não estava em funcionamento. Mas, bem… também não dizia que estava.

E vimos então uma grande, linda, piscina vazia. Com três metros de profundidade num dos lados. E nesse mesmo lado, unida à piscina de adultos, a piscina das crianças, separadas apenas por uma rede, o que me encantou. As crianças numa piscina de 80 cm de profundidade, e uma rede a separá-las de uma piscina de 3 metros de profundidade. Adoro este tipo de oposições – o pequeno com o grande, o íntimo com o público, o familiar no estranho. Parece-me um daqueles sinais de fé, de que não devemos ter medo de nos juntar. E os blocos de partida. Penso que a piscina das Marés também tinha blocos até alguns anos atrás - são como uma lembrança de que afinal as piscinas não são só para brincadeiras e para acalmar temporariamente o calor no corpo. Também são para se nadar – o facto de Álvaro Siza desenhar blocos para as piscinas encanta-me, faz-me sentir em sintonia com ele, como se dissesse: sim, o ato de nadar é algo que está tão integrado na natureza como a arquitetura da piscina.

E lá ficamos, a olhar para a piscina vazia. Pouco surpreendidas, mas desconsoladas na mesma. Fomos dar uma vista de olhos aos balneários. Tanta fralda suja. Aliás, dentro da piscina também. Porquê que alguém se há-de lembrar de atirar fraldas sujas para uma piscina vazia? Enfim.
Saímos do cubo branco e demos uma volta pela piscina da Conceição. Paramos nos campos de ténis, onde parece haver uma escola de ténis. Estavam abertos, em ótimas condições, aparentemente sem ninguém a vigiar. Que tentação. Tanto potencial e pffft. Nada. Ficamos também lá um tempo a meditar sobre isso, com mente em modo sonhador.

E depois, como eu estava com imensa falta de piscina (chegar a uma piscina e estar fechada deixa-me sempre doida), fomos a pé até à piscina das Marés. Mas mesmo com a falta de piscina, ainda comemos uma sande, soneca depois de almoço… porque só saber que tinha a a piscina à minha disposição, para eu nadar quando quisesse, já me descansava. E ao fim da tarde lá fui nadar um bocadinho.
Portanto, acabou por ser um dia muito bom. Duas piscinas do Siza num raio de 5km quadrados. Ok, uma delas vazia, (cheia só mesmo de fraldas sujas), mas sempre descobri uma piscina nova para mim, como sempre descobri algo mais, e fui mesmo nadar a uma piscina do Siza, à beira-mar. E vou continuar a procurar piscinas, lagos, mares, o que for, onde possa nadar. É a minha “desculpa” para me ir movendo neste mundo.



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