Está escuro lá fora e eu estou a escrever. Venho da piscina. Parece-me familiar. Hoje nadei, com mau tempo e céu cinzento. Foi um daqueles dias em que me lembrei porque gosto de nadar. Para voltar ao sítio familiar onde não consigo chegar fora de água; onde descubro algo dentro de mim que não muda; onde uma capa externa desaparece, onde só existe a cadência ritmada das braçadas suaves. Estava cinzento lá fora. O céu também não muda. Nadei mil metros de crawl. A minha mente vagueou, perdeu-se, voltou ao exterior por vezes, admito. Mas também relaxou, eu soube abandonar e deixar andar. Por vezes senti vontade de sorrir na borda da piscina, e deixei-me sorrir.
Qual é a perfeição que procuramos? Por vezes perdemo-nos no aspecto exterior da perfeição, quando só a consideramos na sua forma medível, no certo ou no errado, preto ou branco. Pensamos que temos que fazer “isto assim” para alcançar “aquilo”. Vemos a perfeição como uma meta futura, mas ao estar no futuro, não existe. Perdemo-nos no processo, no “ter” que fazer, e por isso não conseguimos alcançar aquele momento de perfeição que afinal já conhecemos, que não, não é medível e que acontece precisamente agora. Felizmente sinto que nunca me perco para demasiado longe; há sempre avisos que me recolocam no caminho certo. Quando estou cansada de tentar fazer; quando o que faço parece vazio e duro; quando sinto que o faço porque não consigo largar; chega então o momento em que digo a mim mesma que não importa. Não importa se faço bem, se faço mal, se estou no caminho certo ou errado, se evoluo, estagno ou retrocedo; se algo me obriga a continuar, então basta continuar. Faço só porque faço, porque é o que é. E vem mesmo o momento em que regresso a esse sítio perfeito, sossegado e silencioso, mas que parece ter dentro dele todo o mundo. E sorrio na borda da piscina.