quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Bolas de sabão


No mês passado fui nadar a uma piscina municipal de Verão em Madrid - ou seja, bastante gente, nada de pistas, pessoas a correr, saltar e a nadar por todo lado. No entanto, há espaço suficiente para se nadar, mesmo que um pouco desorganizadamente... Como de costume, entro e começo a nadar crol em diagonal. Essa distância que percorro em diagonal é como uma metáfora de liberdade: a distância não tem linhas delimitadoras, cada braçada deixa de ser um meio para chegar a um fim; e não há nada que num tão curto espaço de tempo me dê a mesma sensação de que a felicidade está no aqui e no agora. Depois, estou a cruzar um número enorme de pessoas – estou a cruzá-los, mas não há qualquer conflito. Eu estou ali de forma diferente, mas ninguém se dá conta, ninguém olha, ninguém julga. Sou diferente, mas estou integrada. E mais, o próprio fenómeno é sempre uma surpresa, no sentido em que não estou à procura dele. Não lhe ponho nenhuma expectativa, e ele vem sempre, leve, fácil, alegre e colorido, como uma bola de sabão. Inúmeras vezes, vai-se repetindo – vêm-me à mente outras distâncias percorridas em diagonal, e só com a memória vem-me à pele o mesmo arrepio, a mesma alegria de criança no coração, a mesma vontade de lá voltar.
E, tal qual uma bola de sabão, o momento acaba, desaparece, desfaz-se no ar, e eu sou como a criança, que, no rebentar da bola, passa numa milésima de segundo do estado de absoluto encanto para a total desilusão e confusão. Estou a lembrar-me agora mesmo de um exemplo. Na piscina das marés colocam uma pista para vedar o acesso a uma parte mais perigosa da piscina. É ao lado a essa pista que costumo nadar. Nado em diagonal até à pista, e mal a toco, o encanto desaparece. Estou pronta para nadar, sim, mas já não há a mesma espontaneidade, a mesma leveza, a mesma integração. E quando termino de nadar, volto a nadar em diagonal até às escadas da piscina para sair, e volta aí o encanto. Parece quase cruel, que o encanto volte precisamente quando eu vou sair. Eu sei que não serve de nada voltar para trás a procurá-lo, a bolinha de sabão já rebentou. Mas a desilusão dura também só o milésimo de segundo, porque sei que se há coisa que nunca vai desaparecer, são as bolinhas de sabão. E como diz a Mariana, tudo há de ir bem enquanto as crianças ficarem encantadas com bolinhas de sabão.

Sem comentários:

Enviar um comentário